quinta-feira, 11 de julho de 2019

Dinheiro não traz felicidade



Dinheiro não traz felicidade
Marcos Cordeiro de Andrade
Curitiba (PR), 11 de julho de 2019.

Esse aforismo é carregado de simbolismos, todos pretensamente com cunho de verdade. No entanto, contestando essa tese, os sem dinheiro (ou com muito pouco) estão aí para adjetivá-la como falácia dos que têm o suficiente para gastar, e até mesmo esbanjar.

Sabemos que a existência material do ser humano atualmente não pode dispensar a faculdade de gerar dinheiro, minimamente, para o sustento – seu e dos seus. E quando essa capacidade se esgota a infelicidade bate à sua porta, porquanto as agruras do dia a dia atormentam a todos, tornando suspeito o mote de que “dinheiro não traz felicidade”.

Imagine-se um pai de família envolto nas sombras da gradativa incapacidade financeira para cumprir suas obrigações. Muitos exemplos aleatórios existem, mas um é determinante para boa parcela da população. É o caso do aposentado idoso. Este, esquecido por todos, inclusive na reposição dos proventos sugados pela inflação, vê-se diante da desesperadora situação de impotência por não ser capaz de manter a rotina de provedor, destituído que é implacavelmente por forças não debeladas à sua vontade.

O trabalhador, seja ele da categoria em que se enquadre, uma vez cumprido o interstício necessário para ingressar no mundo dos aposentados cai na realidade do que é ser infeliz. Exatamente por não ter mais o dinheiro necessário à sobrevivência digna, desmentindo a falsa assertiva de que esse elemento não traz felicidade. De tanto sofrer na nova situação, bastaria um pouco mais do que lhe é dado ter para ser feliz materialmente.

Particularmente, os aposentados do Banco do Brasil amargam essas vicissitudes, agravadas pelo fato de existir uma visão deturpada dos seus ganhos com os benefícios previdenciários (privados e oficiais), pelos quais pagou anos a fio. Outrora tachados de Marajás, alcunha carimbada por um Presidente da República nada pobre, sua situação hoje não provoca inveja a ninguém, considerando-se o inusitado e maléfico conjunto de fatores que os cercam. Isto porque, apesar de terem contribuído desde a posse no Banco para um Fundo de Previdência Complementar, e ao aposentar fazer jus a dois “benefícios” (INSS/PREVI), a realidade mostra que a soma dos dois nem de longe lembra os proventos de quando em atividade. Sendo, portanto, uma gritante inverdade o “Complemento” pago pela PREVI por regras próprias, aliado ao fato de o INSS também aplicar um “rebate” no que deveria perceber pelos anos contributivos. Mais precisamente, além de iniciar-se como aposentado percebendo muito aquém daquilo que ganhava como trabalhador, há a corrosão gradativa permitida em reposições insuficientes por índice imposto (INPC).

Interessante é que, malgrado essa ladeira em que descem os parcos recursos disponíveis, a infelicidade material vivida pelo aposentado não encontra quem a minore. Todos fogem dele como de bicho peçonhento – ou como se fora indivíduo portador de grave doença contagiosa.

E enquanto o Estatuto do Idoso debocha do tratamento disseminado, nem os Sindicatos os querem por perto. Como exceção, somente contam com o auxílio capenga de algumas Associações sérias (fundadas e geridas por seus iguais), que recorrem ao Judiciário na esperança de corrigir anomalias nas perdas sistemáticas. Depois disso, nem governos nem padrinhos, tendo Deus por testemunha.

Por isso, hoje lamentam confessar: “Eu era feliz e não sabia”.

Quanto a mim, tivesse eu poder para tanto baixaria um decreto puro e simples:

“Art. 1º - A partir desta data os aposentados e pensionistas idosos, “sem eira nem beira”, serão tratados como GENTE.

§ único – Revogadas as disposições em contrário.”

Marcos Cordeiro de Andrade
- 80 anos -
Aposentado do Banco do Brasil
Matrícula nº 6.808.340-8

3 comentários:

Marcos Cordeiro de Andrade disse...


Prezado Marcos C.de Andrade e demais Colegas,

Parabéns pelo texto-artigo. A nação que não respeita os seus velhos, não tem história para viver ou contar.
O extermínio dos idosos resolveria vários problemas: Previdência Oficial, previdência complementar (Previ), despesas no SUS, na CASSI, gastos familiares com asilos, medicamentos, etc.
O pesadelo para alguns jovens modernos e avançados é que eles (os velhos) existem, sem atinar, entretanto, pela visão míope, que eles também ficarão idosos (se conseguirem essa chance).
Vc já pensou na economia para o Banco do Brasil no caso Previ e Cassi?
Abraços e excelente fim de semana pra todos com dinheiro no bolso e saúde.
Aloísio Cuginotti.

Blog do Ed disse...

Prezado Marcos
Tanto quanto eu, você sabe que no século XVI, a sociedade humana ocidental sofreu a revolução mundial do comércio.Formou-se,então,a primeira teoria econômica, o mercantilismo, cuja ideia fundamental é a riqueza é o valor supremo da vida humana, isto é, a felicidade é a riqueza! A corte do Rei Sol, Luís XIV da França, a corte mais suntuosa de seu tempo, ainda se orientava economicamente pelo Mercantilismo, e mantinha a amante e milhares de nobres no seu Palácio de Versalles, para alegrar-lhe a vida em festas, e selecionadas adolescentes da nobreza no Petit Trianon, para deleite sensual, acrescendo-se de seu confessor para a confissão e a Extrema Unção na hora da morte, a fim de evitar o fogp eterno do Inferno... Ele tinha dinheiro e estava garantido nesta e na outra vida...O restante da Humanidade que fizesse penitência, jejum e orasse... Será que o Brasil ainda permanece e permanecerá por muitos anos guiado pela Mercantilismo?
Edgardo Amorim Rego
Edgardo Amorim Rego

Marcos Cordeiro de Andrade disse...


Sapientíssimas palavras colega Marcos! E eu completo que para diminuir as agruras muitos, inclusive eu, tem que continuar trabalhando duro para manter a vida com um mínimo de dignidade.

Severino Silva.