Idoso dá Prejuízo
Marcos Cordeiro de Andrade
Curitiba (PR), 26 de junho de 2018.
Descuidos da natureza por vezes permitem a proliferação desordenada
de certas espécies, tornando-as fator de risco para o resultado das colheitas.
Felizmente esse fenômeno negativo somente atinge animais irracionais, cujo
crescimento populacional precisa ser contido quando surge dessa maneira. É ocasião
de o Estado intervir decretando a temporada de caça aos desviados do rumo
natural. E dá-se a matança.
No Brasil, fenômeno desse tipo se instalou no nosso meio - coisa
jamais imaginada. Por conta de inexplicável mutação genética, aconteceu que determinada
espécie passou a pôr em risco a colheita na seara das Operadoras de Planos de
Saúde. Mas aqui, onde tudo é possível, é o animal racional o responsável pela
hecatombe financeira vislumbrada. Trata-se do bicho Homem. Ele, ao atingir a
faixa etária dos sessenta anos, concentra viés predatório passível de séria contenção.
Por isso foi deflagrada a operação de caça aos idosos, com anuência do Poder
Central, por omissão. A partir desse ponto as financeiramente fragilizadas Operadoras
arregaçaram as mangas e passaram a executar o extermínio gradual do animal
ameaçador, já que este impedia a evolução dos seus insignificantes lucros. Decretaram
então o abate silencioso e sistemático – não muito lento..
Mas, como nada surge ao acaso, há cerca de seis anos o
embrião dessa tragédia foi exposto em simpósio instalado para debater os
assuntos da CASSI, entre outras coisas. Em meio às autoridades e experts no assunto presentes,
destacou-se uma Diretora da Caixa cuja participação foi determinante para se
chegar à fatalidade do quadro aí de cima, quando, a certa altura dos debates, ela
diagnosticou com frias letras a causa das dificuldades enfrentadas pelo Plano:
“...é o elevado
percentual de pessoas idosas atendidas (23%)” - acrescentando que - “nos últimos três anos, a receita cresceu
33%, contudo a despesa aumentou para 57%”.
- Provavelmente por conta do atendimento aos associados que
envelheceram mais que o permitido pela lógica da Caixa, pode-se deduzir. E para
dar ênfase à explanação recomendou:
“...que todos devem
zelar pelo equilíbrio tão necessário para a manutenção do `Plano”.
- Talvez insinuando que os idosos devem morrer logo, enquanto
há tempo de salvar a CASSI. Foi a gota d’água que encheu o pote de maldades em
formação. Mas isso foi lá atrás e ainda levou tempo para se chegar às funestas
conclusões do presente, porque esse bombástico posicionamento reverberou pelos
corredores da CASSI e ultrapassou fronteiras. O eco serviu de chamamento para
as Operadoras colocarem em prática o conteúdo da ideia original. Advindo o
consenso pelo extermínio da espécie ameaçadora – e de maneira espertamente
simples. Fixaram os valores dos planos para as faixas etárias “perigosas” em
índices estratosféricos, de modo a inviabilizar a permanência dos velhinhos dispendiosos
por incapacidade de pagamento. Isso foi o suficiente para acarretar a debandada
dos menos favorecidos numa demonstração plena do acerto da medida. Em
consequência, e de acordo com dados da ANS, mais de dois milhões de segurados
desistiram dos Planos nos últimos três anos – não necessariamente idosos no
cômputo, mas incluindo outros que engrossaram o séquito dos condenados.
Comprovada, então, a praticidade da necessária “morte aos
idosos” – foi divulgada a elementar equação salvadora. Tirou-se do alcance a
manutenção do plano para que o sujeito visado deixasse de ser elitista e passasse a frequentar as eficientes filas do
SUS, dificultando o elementar atendimento
à saúde. Do que resulta falência precoce dos órgãos abreviando a vida. Ou
antecipando a morte.
Pronto! As Operadoras estão salvas. E ponto final.
E ATENÇÃO! O Ministério dos Sem Noção adverte:
CUIDAR DE IDOSOS FAZ MAL À SAÚDE DOS PLANOS.
Atenciosamente,
Marcos Cordeiro de Andrade
Aposentado – 79 anos

